Teste identifica biomarcador associado à doença, pode reduzir a necessidade de procedimentos invasivos e custa cerca de R$ 3 mil na rede privada; indicação depende de avaliação médica.
Um exame de sangue capaz de identificar alterações biológicas associadas à doença de Alzheimer começou a ser oferecido no Brasil pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). A tecnologia analisa a proteína p-tau217, um biomarcador relacionado às alterações cerebrais características da doença, e surge como uma alternativa para auxiliar o diagnóstico em pacientes com suspeita clínica.
Na rede privada, o procedimento custa aproximadamente R$ 3 mil. A indicação é voltada principalmente a pessoas a partir dos 50 anos que apresentam alterações cognitivas e passam por investigação médica para esclarecer a possível causa dos sintomas.
O novo método pode reduzir a necessidade de exames mais complexos, como a análise do líquido cefalorraquidiano, obtido por punção lombar, e o PET amiloide, exame de imagem utilizado para identificar depósitos de proteína beta-amiloide no cérebro.
Apesar do avanço tecnológico, especialistas ressaltam que o teste não deve ser utilizado isoladamente para diagnosticar demência. O resultado precisa ser interpretado em conjunto com a avaliação clínica, o histórico do paciente e outros exames, quando necessários.
Como funciona o exame
A análise mede a concentração da proteína p-tau217 no sangue. A substância está associada às alterações da proteína tau observadas na doença de Alzheimer e pode ajudar a identificar processos biológicos relacionados à enfermidade.
O equipamento utilizado na análise, desenvolvido pela fabricante belga Fujirebio, recebeu regularização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em agosto, conforme as informações divulgadas sobre a tecnologia.
Uma pesquisa com 1.767 participantes, publicada na revista científica Nature Medicine, apontou índices de precisão entre 89% e 94% para o teste, em comparação com a análise do líquido cefalorraquidiano. Os resultados indicam potencial para auxiliar a investigação diagnóstica, embora o desempenho possa variar conforme a população avaliada e o contexto clínico.
Quem pode realizar o teste?
A realização do exame exige indicação médica e avaliação de sinais de comprometimento cognitivo ou funcional. Queixas isoladas de esquecimento, sem outros elementos clínicos que justifiquem a investigação, não são suficientes para recomendar automaticamente a testagem.
Em pessoas sem sintomas ou sinais clínicos, o significado de um resultado positivo ainda não está estabelecido para orientar, de forma isolada, decisões diagnósticas. Por isso, a identificação de alterações biológicas não significa necessariamente que o paciente tenha demência ou que desenvolverá a doença em determinado período.
O exame deve ser entendido como uma ferramenta complementar, que pode contribuir para esclarecer casos suspeitos e orientar a continuidade da investigação médica.
Alternativa a exames invasivos e de alto custo
Tradicionalmente, a investigação biológica do Alzheimer pode envolver a análise do líquido cefalorraquidiano, coletado por punção lombar, ou exames de imagem, como o PET amiloide. Embora sejam úteis em situações específicas, esses procedimentos apresentam limitações relacionadas ao desconforto, à disponibilidade e aos custos.
O exame de sangue oferece uma coleta mais simples e pode facilitar o acesso à investigação de biomarcadores da doença. A possibilidade de reduzir a necessidade de procedimentos mais complexos, contudo, depende da avaliação de cada paciente e da interpretação dos resultados pelo médico responsável.
Diagnóstico precoce e novas possibilidades de tratamento
A identificação da doença em estágios iniciais pode ajudar a avaliar a elegibilidade de pacientes para tratamentos específicos. Entre as terapias disponíveis em determinados países estão o donanemabe e o lecanemabe, medicamentos que atuam sobre a proteína beta-amiloide e demonstraram retardar a progressão do declínio cognitivo em pacientes selecionados com Alzheimer em fase inicial.
Estudos clínicos apontaram reduções relativas na progressão da doença na ordem de 20% a 30%, dependendo do medicamento, do desfecho avaliado e do período de acompanhamento. Esses tratamentos não representam cura e exigem seleção criteriosa dos pacientes, além de monitoramento médico devido aos possíveis efeitos adversos.
O acesso a essas terapias também depende das aprovações regulatórias, da disponibilidade e das condições de utilização em cada país.
Incorporação ao SUS ainda não tem previsão
Apesar da chegada da tecnologia à rede privada, não há prazo definido para sua disponibilização pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo as informações divulgadas, o Ministério da Saúde não havia recebido solicitações para avaliar a incorporação do exame pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Esse processo envolve a análise de evidências científicas sobre eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto financeiro para o sistema público.
Até que haja uma avaliação e eventual decisão de incorporação, o acesso ao exame permanece condicionado à oferta dos serviços que o disponibilizam e à indicação clínica.
A chegada do teste representa um avanço na investigação da doença de Alzheimer, mas sua utilização adequada depende de critérios médicos, interpretação cuidadosa dos resultados e integração com a avaliação clínica de cada paciente.
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