Sete anos após perder os dois únicos filhos, a nora grávida do primeiro neto e parte da própria história no rompimento da barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho, a economista Helena Taliberti transforma o luto em literatura. No livro “Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes”, publicado pela Editora Ofício da Palavra, ela revisita a trajetória de amor, perda e reconstrução após uma das maiores tragédias socioambientais do Brasil.
Mais do que um relato autobiográfico, a obra se apresenta como um registro de memória e um manifesto contra o esquecimento. Ao narrar a história de sua família, Helena também convida o leitor a refletir sobre o luto, a permanência dos afetos, a responsabilidade coletiva e a necessidade de impedir que tragédias como a de Brumadinho se repitam.
Lançamentos em Ouro Preto e Belo Horizonte
Em 17 de outubro, Helena participa do Fórum das Letras, em Ouro Preto, em uma roda de conversa intitulada “O que permanece”. O encontro reunirá a autora, a jornalista e escritora Daniela Arbex, autora de “Arrastados: Os bastidores do rompimento da barragem de Brumadinho, o maior desastre humanitário do Brasil”, e Fabíola Moulin, diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho.
A conversa parte da experiência pessoal de Helena e da perda de Camila, Luiz, da nora e do neto, para abordar temas como luto, memória e permanência.
No dia 20 de outubro, às 19h, o lançamento será realizado na Livraria Quixote, em Belo Horizonte, durante o Encontros Singulares, espaço de diálogos sobre a vida contemporânea que utiliza os livros como ponto de partida. O encontro será apresentado pela jornalista Paola Carvalho.
Entre a dor da perda e a força do amor
Ao longo da obra, Helena transforma a experiência pessoal em uma reflexão sobre os sentimentos que permanecem mesmo diante da ausência.
“Na perda há uma dor ácida que vem com a ruptura, com o vazio, com a falta de sentido, com os fragmentos em que a vida se torna, com o acordar todos os dias e redescobrir a perda.”
Em outro trecho, a autora estabelece uma relação direta entre o sofrimento e a intensidade do vínculo com aqueles que partiram.
“O perder e o amar são faces da mesma moeda, e é nesse lugar que está a mais profunda experiência humana.”
A narrativa percorre lembranças familiares, a maternidade, a personalidade dos filhos e os valores que marcaram suas trajetórias. Ao mesmo tempo, revela o processo de reconstrução de uma mãe diante de uma perda que não encontra respostas simples.
Três prefácios e diferentes olhares sobre o luto
A publicação reúne três prefácios, assinados por mulheres que acompanharam diferentes dimensões da trajetória de Helena.
A jornalista Cristina Serra, autora de “Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil”, destaca a maneira como Helena reconstrói, por meio da memória, a história dos filhos e da família.
Daniela Arbex, que acompanhou de perto a tragédia de Brumadinho e produziu uma extensa investigação jornalística sobre o rompimento da barragem, também assina um dos prefácios. Em seu texto, ressalta a dimensão de uma dor que somente quem vivenciou a perda é capaz de compreender plenamente.
O terceiro prefácio é assinado pela psicóloga Maria Helena Pereira Franco, que acompanha Helena em seu processo de luto. A especialista reflete sobre os limites e os significados de transformar uma experiência íntima em uma história compartilhada publicamente.
O posfácio é escrito por Vagner Diniz, marido de Helena, que exerceu a paternidade afetiva de Camila e Luiz desde que os dois ainda eram crianças. Para ele, a obra representa um convite para que o leitor reconheça o que realmente importa e aquilo que dá sentido à existência.
Da tragédia à luta pela memória
Camila e Luiz Taliberti eram naturais de São Paulo. Em janeiro de 2019, viajaram com a família para Brumadinho para conhecer o Instituto Inhotim e ficaram hospedados na pousada atingida pela lama após o rompimento da barragem.
No dia 25 de janeiro de 2019, às 12h28, o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, provocou uma avalanche de rejeitos que matou 272 pessoas e deixou profundas marcas humanas, ambientais e sociais.
Após a tragédia, Helena e Vagner, ao lado de amigos de Camila e Luiz, criaram o Instituto Camila e Luiz Taliberti (ICLT). A entidade passou a atuar na preservação da memória das vítimas e na promoção de ações relacionadas à cultura, defesa da vida e proteção do meio ambiente.
Entre 2023 e 2025, o instituto realizou a exposição “Paisagens Mineradas”, que reuniu trabalhos de 12 artistas mulheres e percorreu cidades como Belém, São Paulo, Belo Horizonte e Ouro Preto.
A instituição também promove anualmente a Mostra Cinema, Mineração e Meio Ambiente, reunindo documentários, filmes e debates sobre os impactos humanos, sociais e ambientais da atividade mineradora.
Todos os anos, em 25 de janeiro, o ICLT realiza ainda o Ato pela Memória, na Avenida Paulista, em São Paulo, com atividades culturais e educativas em homenagem às vítimas.
Memória como resistência
Ao transformar sua experiência em livro, Helena Taliberti amplia uma história particular para uma discussão coletiva. A memória de Camila, Luiz, da nora e do neto passa a integrar uma narrativa maior sobre os impactos da mineração, a responsabilidade diante das tragédias ambientais e o direito de preservar a história das vítimas.
Tentar nos enterrar, não sabem que somos sementes surge, assim, como uma obra sobre ausência, mas também sobre permanência. Um livro em que a dor não representa o fim da história, mas o ponto de partida para manter vivos os vínculos, a memória e a luta por um futuro em que vidas não sejam novamente reduzidas a números.
Foto: Divulgação