Pesquisa aponta que 67% dos brasileiros já votaram em candidato diferente do parceiro; levantamento também mostra que a maioria considera o voto uma decisão individual.
À medida que as eleições de 2026 se aproximam, a política volta a ocupar espaço nas conversas cotidianas — inclusive dentro dos relacionamentos. A divergência sobre candidatos, partidos e visões de mundo pode aparecer entre casais, mas os levantamentos recentes indicam que votar de maneira diferente do companheiro ou companheira não significa, necessariamente, compartilhar a mesma escolha nas urnas.
Uma pesquisa da Hibou Pesquisas e Insights, realizada entre os dias 1º e 4 de setembro com 1.449 eleitores brasileiros com 18 anos ou mais, mostra que 67% dos entrevistados já votaram em um candidato diferente daquele escolhido pelo parceiro ou parceira. O levantamento também aponta que 85% defendem que o voto deve permanecer como uma decisão individual, mesmo quando existe divergência política dentro do relacionamento.
Outro dado revela que a diferença de opinião pode levar até mesmo ao silêncio dentro de casa: 47% dos entrevistados afirmaram já ter deixado de comentar sobre política ou declarar o próprio voto para evitar conflitos familiares ou com o parceiro.
Política como parte das conversas sobre compatibilidade
Para Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e porta-voz do MeuPatrocínio, a divergência política pode ser percebida de maneiras diferentes dependendo do estágio do relacionamento.
Segundo ele, existe uma diferença entre descobrir uma divergência depois de anos de convivência e perceber, ainda no início de uma relação, que determinadas posições políticas estão diretamente associadas aos valores pessoais de cada indivíduo.
“O que muda é quando a política deixa de ser apenas uma preferência eleitoral e passa a representar valores fundamentais para aquela pessoa. Nesse caso, é natural que o assunto apareça como parte da conversa sobre compatibilidade”, avalia Bittencourt.
A pesquisa da Hibou mostra, contudo, que a divergência não necessariamente impede a convivência. O levantamento aponta que 73% dos brasileiros consideram que marido e mulher não precisam votar no mesmo candidato. Outros 9% entendem que o casal deve votar no mesmo nome, enquanto 18% afirmam que isso depende da situação.
Voto continua sendo uma decisão individual
Dados do Datafolha, divulgados em julho de 2026, também apontam para a autonomia do eleitor dentro dos relacionamentos. Entre as pessoas que mantêm relacionamento estável, 60% afirmaram que a opinião do companheiro ou companheira não terá nenhuma influência sobre seu voto para presidente.
Na mesma pesquisa, 38% disseram que a opinião do parceiro ou parceira teria muita ou alguma influência. O levantamento ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 139 municípios, nos dias 22 e 23 de julho, com margem de erro de dois pontos percentuais para o conjunto da amostra e de três pontos entre pessoas em relacionamento estável.
Os números mostram que, embora a política esteja presente nas relações pessoais, a escolha eleitoral permanece, para a maioria dos entrevistados, como uma decisão individual.
Quando a divergência envolve valores
Na avaliação de Bittencourt, a diferença entre candidatos escolhidos pode ser menos relevante para um casal do que divergências relacionadas a valores considerados fundamentais.
“Discordar sobre política econômica é uma coisa. A discussão muda quando uma posição política toca diretamente em algo que a pessoa considera parte da própria identidade ou dos seus direitos. Nesse ponto, deixa de ser só uma conversa sobre candidato. Vira conversa sobre valores”, afirma.
O especialista também defende que pessoas que consideram determinada visão de mundo indispensável em um relacionamento devem tratar do assunto com transparência, sem transformar o primeiro encontro em um debate eleitoral.
“Se posição política é algo realmente importante para você, é melhor descobrir cedo. O que não faz sentido é transformar o primeiro encontro em um debate presidencial ou tratar qualquer divergência como prova automática de incompatibilidade”, afirma.
Divergência política exige diálogo
Os levantamentos indicam que a política pode gerar tensões dentro de casa, mas também mostram que casais não necessariamente precisam compartilhar a mesma preferência eleitoral.
A pesquisa da Hibou aponta ainda que quase metade dos brasileiros já evitou falar sobre seu voto para impedir conflitos. Ao mesmo tempo, a maioria entende que parceiros não precisam necessariamente escolher o mesmo candidato.
Para Bittencourt, o principal ponto está em diferenciar uma divergência eleitoral pontual de diferenças profundas sobre valores e expectativas de vida.
“Eleição acaba. Relacionamento, se for forte, continua. O desafio é descobrir se vocês estão discordando sobre um candidato ou se estão discordando sobre valores fundamentais da vida. São coisas bem diferentes”, afirma.
Com o primeiro turno das Eleições 2026 marcado para 4 de outubro, o tema tende a continuar presente nas conversas entre familiares, amigos e casais. Os dados disponíveis, porém, mostram que ter opiniões políticas diferentes não significa, por si só, que duas pessoas não possam manter uma relação — e que a decisão sobre o voto permanece individual para a maioria dos entrevistados.
Foto: Divulgação